Recebo e publico uma nota sobre o Movimento Jovem Portugal, vinda de uma testemunha directa daqueles tempos: um militante da organização Jovem Europa, autor do nome e emblema (o Doriphorus: símbolo criado por Policleto na sua obra sobre a Harmonia) do Centro de Estudos Sociais Kanon [p.124].Foto: em 1964, a revista Ordine Nuovo do omónimo grupo neofascista italiano publica uma entrevista com Zarco Moniz Ferreira chefe de Jovem Portugal.Existe, sem dúvida, muita documentação sobre o Movimento Jovem Portugal. É natural que se seja levado a pensar que a sua importância foi grande em Portugal. Mas a realidade é, na minha opinião, bem diversa. É evidente que teve algumas acções e certa expressão jornalística, atendendo à sua qualidade de movimento político. Todavia, a sua força era débil, e nos próprios anos 60 não conseguiu enfrentar os movimentos de Esquerda que se foram formando. Recordo-me da sua ausência numa violenta acção junto à Faculdade de Ciências de Lisboa. Não esteve presente qualquer elemento do Jovem Portugal. A actuação pertenceu a alguns militantes de Direita que não estavam organizados devidamente.
E quanto a originalidade, a criatividade do Jovem Portugal? Entendo que quase não existiu. Socorreu-se fundamentalmente das Doutrinas Fascista e Nazi, com certas adaptações. Praticava, como em qualquer Fascismo, o culto do chefe; dizia-se nacionalista incondicional, sendo ferozmente anticomunista; defendia um nacional-sindicalismo, preferindo este termo – penso eu – a Corporativismo, por táctica e por influência externa próxima. O Corporativismo em Portugal estava gasto e o Nacional-Sindicalismo era de influência espanhola; José António Primo de Rivera e as JONS (Juventudes Operárias Nacionais Sindicalistas) que o Franquismo sabotou, como em Portugal aconteceu ao Nacional-Sindicalismo de Rolão Preto. Não encontro, assim, autonomia conceptual no Jovem Portugal.
A ideia de um nacionalismo universalista ou ecuménico é uma ideia, como ideia, contraditória. Não passa de uma confusão e entendo que tem a ver com a doutrina de Salazar sobre a integração portuguesa, com os povos de Timor ao Minho, na qual eu penso que nem ele acreditava, pois é abstracta, desligada e mesmo contrária à tradição colonial portuguesa, fundamentalmente militar.
A juntar, outro conceito nebuloso: o tratamento, a abordagem do capital e do capitalismo. Este ou é de Estado ou de Associação, como é sabido. Pretender que aquele seja baseado nos trabalhadores, no nacional-sindicalismo, parece-me utópico; se outras razões não houvessem, havia – e há – a de que um trabalhador, um sindicalista, é sempre um futuro capitalizador, pretende vir a participar do capital. Por outro lado, a ideia implícita da Justiça Social é muito diferente hoje - e já era nos anos 60 – da existente antes da I Guerra Mundial, no tempo em que se levantaram Fascismo e Comunismo, Doutrinas com finalidades semelhantes, totalitárias e de massas.
No princípio do século XX, ser trabalhador era sinónimo de exploração sem remédio: baixo ou baixíssimo poder de compra, descendo até à fome, fome mesmo. Do lado oposto estavam os ricos, os proprietários. Hoje quem detém a propriedade não é necessariamente rico. Há empregados por conta de outrem, que não são proprietários de coisa nenhuma, que têm muitíssimo mais rendimento que proprietários de bens imóveis e mesmo móveis. Foi esta realidade que principalmente enfraqueceu os Partidos Comunistas, que continuam a dizer que são os Partidos dos Trabalhadores, mas não são. Foram. Quero dizer, eles podem continuar a dizer que os seus apoiantes são os trabalhadores, mas isto é uma questão semântica: o mesmo que dizer que alguém é fidalgo ou nobre hoje, e dizê-lo no século XIX, sem falar no XVIII. Claro que os Partidos Comunistas e Neofascistas até podem voltar a ter peso, mas com um conteúdo bem diferente. Terão que prometer resolver problemas novos, porque os antigos já estão muitos, resolvidos.
Para completar o ideário do Jovem Portugal o racismo surgiu: lá estão as referências bem conhecidas em relação a judeus e gente de cor, eufemismo de pretos. Isto foram buscar ao Nazismo principalmente. O Jovem Portugal muito fiel à Filosofia onde foi inspirar-se afirmava a negação do indivíduo em favor do grupo, muito naturalmente. Havia muita estratégia e táctica que alguns dos próprios militantes sabiam que não levaria a lado nenhum. Só lhes faltou confessarem-se Nacionais Socialistas, uma vez que a raiz era afim. Mas seria demais! A Alemanha era a Alemanha, com o grupo Spartakista, com Rosa Luxemburgo, que foi origem do Partido Comunista alemão, que os Nazis tiveram que combater rijamente para juntar à sua volta a classe operária mais do que destruir as estruturas sociais.
E deste modo o Movimento Jovem Portugal acabou confundido e subordinado às instituições dependentes do Governo de Salazar, como a Legião Portuguesa. O Fascismo ou Nazismo nunca se teriam levantado sem a ligação ao Capitalismo do primeiro quartel do século XX.