Jovem Portugal por um militante de Jovem Europa [04-10-2010]

Recebo e publico uma nota sobre o Movimento Jovem Portugal, vinda de uma testemunha directa daqueles tempos: um militante da organização Jovem Europa, autor do nome e emblema (o Doriphorus: símbolo criado por Policleto na sua obra sobre a Harmonia) do Centro de Estudos Sociais Kanon [p.124].

Foto: em 1964, a revista Ordine Nuovo do omónimo grupo neofascista italiano publica uma entrevista com Zarco Moniz Ferreira chefe de Jovem Portugal.

Existe, sem dúvida, muita documentação sobre o Movimento Jovem Portugal. É natural que se seja levado a pensar que a sua importância foi grande em Portugal. Mas a realidade é, na minha opinião, bem diversa. É evidente que teve algumas acções e certa expressão jornalística, atendendo à sua qualidade de movimento político. Todavia, a sua força era débil, e nos próprios anos 60 não conseguiu enfrentar os movimentos de Esquerda que se foram formando. Recordo-me da sua ausência numa violenta acção junto à Faculdade de Ciências de Lisboa. Não esteve presente qualquer elemento do Jovem Portugal. A actuação pertenceu a alguns militantes de Direita que não estavam organizados devidamente.

E quanto a originalidade, a criatividade do Jovem Portugal? Entendo que quase não existiu. Socorreu-se fundamentalmente das Doutrinas Fascista e Nazi, com certas adaptações. Praticava, como em qualquer Fascismo, o culto do chefe; dizia-se nacionalista incondicional, sendo ferozmente anticomunista; defendia um nacional-sindicalismo, preferindo este termo – penso eu – a Corporativismo, por táctica e por influência externa próxima. O Corporativismo em Portugal estava gasto e o Nacional-Sindicalismo era de influência espanhola; José António Primo de Rivera e as JONS (Juventudes Operárias Nacionais Sindicalistas) que o Franquismo sabotou, como em Portugal aconteceu ao Nacional-Sindicalismo de Rolão Preto. Não encontro, assim, autonomia conceptual no Jovem Portugal.

A ideia de um nacionalismo universalista ou ecuménico é uma ideia, como ideia, contraditória. Não passa de uma confusão e entendo que tem a ver com a doutrina de Salazar sobre a integração portuguesa, com os povos de Timor ao Minho, na qual eu penso que nem ele acreditava, pois é abstracta, desligada e mesmo contrária à tradição colonial portuguesa, fundamentalmente militar.

A juntar, outro conceito nebuloso: o tratamento, a abordagem do capital e do capitalismo. Este ou é de Estado ou de Associação, como é sabido. Pretender que aquele seja baseado nos trabalhadores, no nacional-sindicalismo, parece-me utópico; se outras razões não houvessem, havia – e há – a de que um trabalhador, um sindicalista, é sempre um futuro capitalizador, pretende vir a participar do capital. Por outro lado, a ideia implícita da Justiça Social é muito diferente hoje - e já era nos anos 60 – da existente antes da I Guerra Mundial, no tempo em que se levantaram Fascismo e Comunismo, Doutrinas com finalidades semelhantes, totalitárias e de massas.

No princípio do século XX, ser trabalhador era sinónimo de exploração sem remédio: baixo ou baixíssimo poder de compra, descendo até à fome, fome mesmo. Do lado oposto estavam os ricos, os proprietários. Hoje quem detém a propriedade não é necessariamente rico. Há empregados por conta de outrem, que não são proprietários de coisa nenhuma, que têm muitíssimo mais rendimento que proprietários de bens imóveis e mesmo móveis. Foi esta realidade que principalmente enfraqueceu os Partidos Comunistas, que continuam a dizer que são os Partidos dos Trabalhadores, mas não são. Foram. Quero dizer, eles podem continuar a dizer que os seus apoiantes são os trabalhadores, mas isto é uma questão semântica: o mesmo que dizer que alguém é fidalgo ou nobre hoje, e dizê-lo no século XIX, sem falar no XVIII. Claro que os Partidos Comunistas e Neofascistas até podem voltar a ter peso, mas com um conteúdo bem diferente. Terão que prometer resolver problemas novos, porque os antigos já estão muitos, resolvidos.

Para completar o ideário do Jovem Portugal o racismo surgiu: lá estão as referências bem conhecidas em relação a judeus e gente de cor, eufemismo de pretos. Isto foram buscar ao Nazismo principalmente. O Jovem Portugal muito fiel à Filosofia onde foi inspirar-se afirmava a negação do indivíduo em favor do grupo, muito naturalmente. Havia muita estratégia e táctica que alguns dos próprios militantes sabiam que não levaria a lado nenhum. Só lhes faltou confessarem-se Nacionais Socialistas, uma vez que a raiz era afim. Mas seria demais! A Alemanha era a Alemanha, com o grupo Spartakista, com Rosa Luxemburgo, que foi origem do Partido Comunista alemão, que os Nazis tiveram que combater rijamente para juntar à sua volta a classe operária mais do que destruir as estruturas sociais.

E deste modo o Movimento Jovem Portugal acabou confundido e subordinado às instituições dependentes do Governo de Salazar, como a Legião Portuguesa. O Fascismo ou Nazismo nunca se teriam levantado sem a ligação ao Capitalismo do primeiro quartel do século XX.

Conversando com um Leitor [30-10-2010]

Apresento uma interessante troca de impressões que tive com um leitor dos livros "Folhas Ultras" e "Império, Nação, Revolução".
As Perguntas/considerações do Leitor serão indicada em itálico e com o acrónimo CF, as minhas respotas com o acrónimo RM.

CF: Gostei muito dos seus dois livros sobre a história da direita radical em Portugal. Creio que esses livros representam um contributo valioso para a historiografia nacional e que o facto de serem escritos por um estrangeiro ainda mais valoriza esse contributo.
Dito isto, gostaria de fazer alguns comentários sobre esses livros, apesar de a minha formação académica não ser na área da história.
No que toca ao livro Folhas Ultras, parece-me que ele peca por uma ausência de contextualização do percurso de Alfredo Pimenta. Julgo que teria sido interessante fazer um resumo do percurso anterior de Alfredo Pimenta bem como do estado em que estava a direita radical em 1939, quando começa a guerra, tendo em conta o resultado da agitação nacional-sindicalista de uns anos antes. Por exemplo, qual a relação, se é que havia alguma, entre os nacional-sindicalistas e Rolão Preto, de um lado, e Alfredo Pimenta, do outro, quer antes de 1939, quer depois desse ano? Qual a relação de Alfredo Pimenta com os expoentes do Integralismo Lusitano durante as décadas de 1930 e 1940? Alguns destes assuntos são aflorados brevemente no livro mas eu creio que todo o contexto em que se move Alfredo Pimenta e a direita radical poderia estar mais bem retratado no livro. Só assim se poderia perceber, por exemplo, a evolução ideológica de Rolão Preto que começa por estar à direita de Salazar e acaba à sua esquerda, a apoiar a oposição democrática.

RM: muito obrigado pela sua e-mail. Agrada-me saber que encontrou nos meus dois livros uma leitura interessante.
O Senhor afirma que o livro "Folhas Ultras" peca por uma ausência de contextualização do percurso de Alfredo Pimenta (situação da direita radical antes de 1939 e relação com Rolão Preto e Integralismo Lusitano). De facto você tem razão. "Folhas Ultras" surge como parte introdutória aos meus estudos sobre a direita radical portuguesa nos anos 60-70, mas desenvolveu-se de tal maneira (pense aos achados sobre o percurso do jornal "A Nação" e o grupo de jovens de "Mensagem") que apesar de não representar uma obra exaustiva sobre direita radical antes dos anos 60, mereceu uma publicação autónoma, devido também à diferença organizativa e doutrinária da direita radical dos anos 40/50 (reunida à volta de Pimenta) relativamente à dos anos 60. Inicialmente não era minha intenção abordar o pensamento de Alfredo Pimenta, querendo eu dedicar-me às organizações da direita radical mais que aos pensadores individuais, mas acolhi (com muito gosto e proveito) a sugestão do Professor António José de Brito que aconselhou-me vivamente de abordar o pensamento político de Alfredo Pimenta como alicerce da militância intelectual de toda a geração radical dos anos 40-50. Certo é que - como você diz - a relação de Pimenta com os Integralistas e com Rolão Preto nos anos 30-40 teria sido muito interessante e indicativa das fracturas que se viveram na direita radical e que se desenvolveram nos anos a seguir, mas quando se escreve um trabalho histórico é preciso fazer escolhas: focalizar certos argumentos e deixar apenas "aflorar" outros deixando-os na mesa como pistas para futuras investigações.

CF: Também gostaria de perceber porque é que o período escolhido começa em 1939 quando a maior dinâmica da direita radical em Portugal sucede uns anos antes, nomeadamente com o movimento nacional-sindicalista, na primeira metade da década de 1930.

RM: A razão pela qual decidi escolher o ano de 1939 como começo dos meus estudos, deixando de lado o nacional-sindicalismo, reside no facto que o meu objectivo era sondar as origens da direita radical intransigentemente adepta do fascismo e do nacional-socialismo como base de partida para estudar os movimentos que após 1945 permaneceram fiéis aos "derrotados da Guerra". E estas origens encontram-se na altura do eclodir da II Guerra Mundial quando uma parte consistente (talvez a mais consistente) do nacionalismo radical português decide permanecer fiel à antiga aliança com a democracia Inglesa e apoiar nessa perspectiva o neutralismo de Salazar. É a partir de 1939 que se estrutura uma frente rigidamente pró-Eixo à volta do jornal Esfera e de Alfredo Pimenta que se manterá activa também depois de 1945: nestas origens do meio pró-Eixo, o nacional-sindicalismo como organização estruturada (inclusive no seu líder Rolão Preto) teve pouca influência e não apenas por ter sido dissolvido 5 anos antes do começo da Guerra.

CF: Disse numa entrevista que estava a trabalhar num estudo que abordava a direita radical no período democrático. Gostaria de saber se tenciona abordar fenómenos mais recentes como sejam a fundação do PNR.
Finalmente, gostaria de saber a sua opinião sobre a seguinte tese. É opinião comum que aquilo que no actual regime democrático impede a direita radical de ultrapassar a sua situação de marginalidade política é a memória ainda bastante viva do regime autoritário do Estado Novo. Isto porque seria natural que no presente contexto de dificuldades económicas e problemas sociais pudesse emergir à direita um partido com o mesmo êxito político que o BE teve à esquerda. Gostaria de saber se concorda com essa tese, especialmente tendo em conta que no seu país, a Itália, a memória do regime de Mussolini (que arrastou o país para uma guerra, coisa que não aconteceu em Portugal) não impediu o MSI, no pós-guerra, de ter representação parlamentar durante décadas e, inclusive, um seu dirigente de chegar a vice-primeiro-ministro.

RM: Em relação aos meus estudos actuais, a resposta é sim: estou analisando todo o período democrático desde 25 de Abril de 1974 até aos nossos dias, inclusive o PNR sobre o qual apresentei já algumas comunicações em congressos nacionais e internacionais e escrevi um artigo que deverá ser publicado numa revista italiana. Acerca deste partido ou da área a volta dele e da possibilidade de reproduzir, na extrema-direita, o percurso eleitoral do BE, posso dar-lhe uma opinião como cientista político, pois não sou futurologista e (graças a deus) não trabalho com bolas de cristal. O que outros países europeus nos mostram é que partidos de direita radical têm possibilidades de vincar nos tempos actuais de crise económico-social, mas só se tiverem uma identidade alheia às experiencias autoritárias da primeira metade do Século XX. Como você justamente referiu, na Itália conseguiu emergir e resistir um partido de clara inspiração Mussoliniana como o MSI, mas estávamos em 1946 quando apesar da derrota, a "cultura política" do eleitorado ainda mantinha certas referências ideológicas (fascismo/comunismo/etc.). Quando, nos anos 90, se deu a crise italiana de "mãos limpas" e a passagem da primeira à segunda república, o MSI teve a oportunidade de capitalizar em termos de votos esta crise, mas para o fazer (e conseguiu faze-lo) teve que abandonar progressivamente a sua identidade fascista (já a muito fossilizada e estéril), aproximando-se de uma identidade liberal-conservadora com matizes claramente anti-fascistas. Quem representa com sucesso certas posições de extrema-direita na Itália hoje (apesar de não se definir tal) é a Lega Nord, um partido populista e regionalista que cresce no húmus da crise económico-social mas que se apresenta abertamente como partido anti-fascista e demoliberal. O mesmo se passa com os partidos populistas e de extrema-direita do norte-Europa: todos anti-fascistas e ocidentalistas (daí o apoio a Israel, a islamophobia, etc.). A mesma Frente Nacional francesa, que por primeira represnetou uma força de extrema-direita com sucesso consolidado, sempre reivindicou o seu cariz "não fascista" (nunca se definiu anti-fascista que eu saiba), ou seja a componente fascista interna sempre foi mantida à margem da identidade oficial do partido que se refazia muito mais ao nacional-populismo poujadista (de onde vinha Le Pen). E de facto onde Le Pen encontrou grandes dificuldades (assim como Haider) foi frente às acusações de "fascismo" (o Holocausto como detalhe da História; certo pangermanismo austríaco saudosista do Reich, etc.). Em fim, parece-me que a possibilidade do emergir de um partido nacional-populista e de extrema-direita até possa existir em Portugal, mas não de matriz salazarista (penso por exemplo ao que aconteceria se Alberto João Jardim decidisse fundar um partido nacional "anti-sistema" centrado na sua liderança carismática...na minha opinião teria bons resultados). Dito isso, acho também que em Portugal possa ter êxito um partido populista com um discurso anti-elitista (contra a classe política), anti-corrupção e anti-partitocrático. Pelo contrário, duvido muito que o discurso anti-islâmico e anti-imigração tenha algum resultado a nível nacional, devido às características sociais de Portugal (trata-se de saber escolher a agenda política).

Jornal de Notícias [03-10-2010]

Na edição de ontem, domingo 3 de Outubro, do Jornal de Notícias saiu o artigo sobre a extrema-direita europeia, "Votos que expressam os medos" (p.50), com algumas análises minhas que o jornalista retirou de uma longa conversa telefónica que tivemos.

Apresento, aqui, dois excertos das minhas análises e peço aos leitores do blogue que enviem os seus comentários, em particular sobre o caso do PNR. A contribuição dos militantes/simpatizantes é particularmente bem vinda.



John Andrade [23-08-2010] - II

Mais umas valiosas memórias de John Andrade acerca da Legião Portuguesa.

Sobre a Legião Portuguesa: a partir do momento em que Marcello Caetano subiu ao poder, a LP, que estava em decadência, começou a reorganizar-se, aceitando antigos combatentes do Ultramar (em especial Comandos e Rangers) e alguns voluntários estrangeiros para construir uma frente de oposição a Marcello, que já há anos era considerado de pouca confiança; e Marcello sabia disto, de tal modo que tentou acabar com a LP, mas sem o conseguir. Por outro lado, o Serviço de Informação da LP tinha à frente um holandês, o Engenheiro Gijsbert Andringa, que se suspeitava que fosse Marcellista e tinha uma filha comunista, a Diana Andringa; e o subchefe era o Major Antunes, pai do famoso Melo Antunes, bem conhecido por ligações à esquerda activa e com ficha na PIDE. Em resumo, o SI estava infiltrado indirectamente, e ainda por cima estava sob a vigilância da PIDE, por ordem directa de Marcello.

Alguns Comandos Distritais da LP eram pouco activos, o que levou a facção nacionalista revolucionária a tomar iniciativas que os Comandantes, geralmente oficiais do Exército, desconheciam. Acontecia também que essa facção da LP tinha o apoio da 2ª Repartição (Informações) do Exército. Chegou-se ao ponto de haver uma rivalidade aberta entre a LP e a PIDE para ver quem enviava ao Governo as melhores informações com maior rapidez. E embora a PIDE tivesse uma rede estabelecida de informadores, a LP tinha informações de melhor qualidade; ainda me lembro de ter lido vários PERINTREPS e SITREPS, que realmente estavam feitos com profissionalismo.

No quartel general da LP, na Penha de França, havia antes do 25 de Abril uma colecção extraordinária de relatórios de agentes secretos do tempo da 2ª guerra mundial. O Governo português era neutro, a Inglaterra era a "velha aliada", mas havia muita gente a favor do Eixo. Lisboa era, naqueles anos, uma cidade onde se encontrava um espião em cada canto. A PVDE (antecessora da PIDE) vigiava os agentes alemães e italianos. E a LP simpatizava com eles e trocava informações – e de que maneira; tráfego marítimo, por exemplo. Estava tudo naquelas pastas. Infelizmente, parece que, na altura do 25 de Abril, foi tudo destruído ou deitado para o lixo. Uma perda inestimável.

John Andrade [16-08-2010] - I

John Andrade - autor, entre outras obras, do Dicionário do 25 de Abril - enviou-me este interessante testemunho sobre Coimbra na crise académica de 1969. Publico-o com todo o gosto e espero que este nosso contacto possa tornar-se cada vez mais produtivo em termos de investigação histórica.

Comprei hoje o seu livro Império, Nação, Revolução, que li com muita atenção, por ter vivido a Crise de 69 na Universidade de Coimbra, altura em que coleccionei quantos prospectos encontrei e tirei notas abundantes.

Só me posso pronunciar sobre a parte que diz respeito a Coimbra, e cuja leitura, aliás, me agradou imenso. Mas haveria alguns reparos a fazer. Dois exemplos: na p. 289, seria útil acrescentar que o Comité de Caça aos Comunistas foi criado em Lisboa, onde actuou sobretudo, estendendo-se mais tarde a Coimbra, onde se aliou à ANSA; e na p. 359, confirmo que as folhas intituladas Crónica de uma Vaca Espanhola eram realmente produzidas pela ANSA. Ao que parece, a ANSA começou como um simples projecto de guerra psicológica, mas depressa ganhou vida própria. Creio que teve realmente um papel decisivo na demissão do Gouveia Monteiro. E sabe que tinha contactos com certos movimentos europeus, como a CEDADE em Espanha, e com individualidades como Giorgio Almirante. Outro pormenor: creio que não utilizou as actas do Senado Universitário e dos Conselhos das Faculdades, que têm dados importantes sobre a génese e evolução da Crise de 69. E não mencionou, por exemplo, a filiação confirmada do Reitor Gouveia Monteiro no PCP, nem o José Barros Moura, controleiro do mesmo partido, nem a grande oposição das direitas revolucionárias a José Miguel Júdice, acusado de ser "burguês" e de ter a preocupação de não desagradar ao regime de Marcello Caetano. A razão principal para os ataques dos nacionalistas revolucionários ao Júdice era esta: não confiavam nele. Acusavam-no mesmo de colaborar com as autoridades na perseguição à ANSA, FRA, CCC, etc. – entre outras razões porque ele chegou um dia a dizer, na Cidadela, que "aqueles extremistas só nos causam problemas".

Não fala, no seu livro, da constituição de um Conselho de Veteranos paralelo, que chegou a emitir alguns Decretos. Dizia-se na altura, mas creio que sem fundamento, que o Dux Veteranorum à frente deste Conselho era o veterano de Direito Luís Miranda Pereira, que depois foi Director Geral dos Serviços Prisionais, já em plena democracia.

Embora se refira a agressões a raparigas universitárias e ao facto de o Movimento Estudantil (ME) negar a sua responsabilidade, esqueceu-se de mencionar que foram estas agressões que levaram ao desmantelamento do ME. Eu explico: por ordem directa de Marcello Caetano, a PIDE estava impedida de actuar contra os militantes do ME, que só podiam ser detidos pela PSP, em casos de violação da ordem pública ou delitos menores, ou pela Polícia Judiciária (PJ), em casos de matéria criminal. Ora aconteceu que uma das universitárias agredidas em suas casas era uma filha do Inspector Tinoco, da PIDE, que tomou o assunto nas suas mãos e colaborou com a PJ na identificação e captura dos militantes do ME responsáveis. A partir deste momento, a repressão da PJ passou a ser um facto, aliás contra a vontade de Marcello Caetano, e o ME, que até então tinha gozado de bastante impunidade, viu-se muito limitado nas suas actividades. Quando o Reitor Gouveia Monteiro se demitiu e foi substituído pelo Prof. Doutor Cotelo Neiva, o ME estava pràticamente desactivado, e até ao 25 de Abril nunca mais causou problemas.

Quanto ao Reitor Gouveia Monteiro, já tinha tentado demitir-se antes do incidente do Teatro Gil Vicente, mas o seu pedido foi indeferido pelo Ministro da Educação, Veiga Simão (que, como ele próprio veio a confessar, estava no Governo de Marcello Caetano para o minar por dentro). A sua demissão foi finalmente aceite, não por causa do incidente acima referido, mas pela crescente oposição dos professores e Directores das Faculdades à sua actuação, e também por estar à beira de uma crise de nervos.

Pedro Mesquitela - II [28-05-2010]

Recebo e publico algumas notas de Pedro Mesquitela, protagonista - ele e a sua família - de páginas importantes da luta integracionista pelo então Ultramar português.

Foi um período muito interessante, pois nem sempre as pessoas estavam directamente ligadas a partidos, e muitos iam apenas pelo feeling e sem coordenação alguma, participando só de grupos restritos aos amigos.

Poucos foram realmente influentes como pensadores ou idealizadores, e, eu mesmo, nunca fui ligado a nenhum partido ou facção política, tendo sempre pautado as minhas acções pelo que me parecia correcto e não porque seguisse ordens de ninguém. Fui mais prático do que teórico, embora tivesse estudado toda a teoria. Conheci pessoalmente a maior parte dos nomes que cita a respeito de Coimbra, e concordo que eles tinham um maior embasamento político como grupo. Lisboa sempre foi mais "generalista ".

De certa forma fui o contrário do Luís Fernandes. Ele era o teórico, mas só conheceu a prática no exército. Eu era o prático que no exército foi CCC (graduado em comandante de companhia) mas trazia a bagagem de ter nascido no meio da política e conhecer bem os atores, tanto na Metrópole como no Ultramar. E tinha uma experiência prévia de comando.

As únicas vezes que me consenti pertencer a algum grupo foram os escoteiros em Lourenço Marques e, claro, a Mocidade Portuguesa. Depois conheci o Luís Fernandes (creio que através do António Maria Zorro e o António Couto Viana) e passámos a militar juntos em algumas acções inclusivamente na Legião Portuguesa. Foi ele que me levou para lá e tivemos boas discussões internas no grupo de combate a que pertencíamos com teóricos "marcelistas" tipo Casal Ribeiro .
E nós estávamos certos, o que não ajudou em nada pós 25 de Abril, a não ser prisão ou confinamento domiciliar e seguidas idas á Comissão de Extinção da Legião Portuguesa (leia-se MFA).

Acredite que hoje sou muito mais liberal, talvez até porque não sofro pressões de nenhum tipo e não tenho que reagir com a mesma intensidade e em sinal contrário. Mas não acredito em nenhum político nem faço política no sentido lato da palavra. Acompanho como espectador atento, tiro as minhas conclusões, comparo minhas opiniões no passado com o futuro, e fico feliz quando acerto o diagnóstico. E fico triste com a "baixa política" existente hoje em Portugal.

Que saudades da Librerie de L'Amitié em Paris ....e, de certa forma, da Nouvelle Ordre e dos seus ideólogos. Ao menos existia uma ideologia pela qual viver e lutar. Hoje não sei se realmente existe, até porque o mundo está muito diferente e o bipolarismo acabou (felizmente nesse ponto). Mas falta ainda a "Terceira Via " que nem sabemos ainda realmente o que é.

Vi muito, ouvi muito, vivi muito até porque os Pais e irmãos estavam em Moçambique e eu era o único em Lisboa na Faculdade de Direito. Tinha assim acesso aos 2 lados da realidade portuguesa - a da Metrópole e a do Ultramar, a dos civis e a dos militares, a dos políticos de "esquerda"e de "direita". Triste foi ver como a população da Metrópole em geral conhecia mal a realidade Portuguesa. E disso se aproveitaram muitos, sem escrúpulos nem cor política.

Isso não significa que eu não aprove um Portugal mais Europeu. Também acreditei que as Províncias deveriam ter sua independência, mas não gostei da forma como foi feito, com total desrespeito aos portugueses de lá e até animosidade na Metrópole em relação aos chamados "retornados ". E, sobretudo, o posicionamento dos 2 primeiros governos pós 25 de Abril em relação aos cidadãos, tanto em Portugal como no estrangeiro (consulados). Sou testemunha viva disso, pois saí de Portugal em Agosto de 1975 e só pude voltar em 1988 (quando consegui uma amnistia pela visita do Papa), que acabou com a minha ordem de captura em Portugal. E tive irmãos considerados apátridas pelo Governo Português só porque tinham nascido em Moçambique...Mas tinham bilhetes de identidade e passaportes dizendo República Portuguesa, e não conheceram nunca outra bandeira na vida que não fosse a nossa.

Vejo hoje mais as coisas sob o ponto de vista humano do que político.

Pedro Mesquitela

Pedro Mesquitela - I [28-05-2010]

Recebo e publico algumas notas de Pedro Mesquitela, protagonista - ele e a sua família - de páginas importantes da luta integracionista pelo então Ultramar português.

[Na] reunião na Quinta das Lágrimas, em Coimbra em 1970, após incidentes no Teatro Gil Vicente, […] discursaram vários integrantes das chamadas "direitas" inclusive ex-ministros de Salazar (Franco Nogueira), de que resultaram realmente vários artigos contra o regime "liberal" do Marcelo Caetano. O Luís Fernandes deve ter ainda cópia do artigo que na altura escrevi no jornal que ambos patrocinávamos chamado "Acuso". Muita pretensão minha ...

Devemos ainda falar de gente que naquela altura foi realmente importante como o Jaime Nogueira Pinto, o Luís Fernandes e o Pedro Pinto (em Lisboa) e nos movimentos nas faculdades em Lisboa em 1970 (Jorge Braga de Macedo, Marcelo Rebello de Sousa, eu mesmo, e tantos outros, que já demonstrava o que seria o pré e o pós 25 de Abril.) E os movimentos dentro do próprio governo de Marcelo Caetano com gente como o Baltazar Rebello de Sousa, o Silva Cunha (antigo ministro do Ultramar), O João Rosa (ex-ministro das Finanças) cada qual com a sua agenda e propósito.

[…] meu Pai escreveu vários livros sobre a posição a respeito do Ultramar e fez várias intervenções na Assembleia onde era deputado por Moçambique , e até 7 volumes sobre a História de Portugal em Macau e Extremo-Oriente . Mas fazem parte de um quadro mais vasto, e só posso adiantar que as chamadas "direitas" não eram exactamente monolíticas, tendo várias vertentes, sobretudo no que respeita á política Ultramarina. Desde 1952, quando o Prof. Adriano Moreira foi Ministro das Colónias existiam vários movimentos e matizes quanto á auto-determinação, independência ou simples abandono do Ultramar. Expoentes eram o próprio Prof. Adriano Moreira (que criou o ICSPU), o meu Pai, o Jorge jardim, o Santos e Castro (governador em Angola), o Pimentel dos Santos (governador em Moçambique) entre outros.
Cada qual á sua maneira e com uma visão pessoal do futuro, embora pudessem diferir nos meios para se alcançarem os fins. E todos poderiam ser chamados de "direitas". Mas "direitas" em relação a quê? Onde estava o centro em 1970? Enfim, daria para conversarmos anos a fio.

O Ultramar era a grande questão em Portugal, talvez porque era filho de uma visão de ditadura ou de democracia. Sobretudo a partir de 1970 a questão fica mais aparente, com o Marcelo Caetano e sua indecisão íntima, a traição ao Integralismo Lusitano de que tinha sido artífice, a traição aos ideais "fascistas" como Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, e a enorme falta de capacidade de substituir o movimento aglutinador da antiga União Nacional pela amorfa ANP. Mas não quero ainda entrar nessa questão. É só um "aperitivo ".

Folhas Ultras na Feira do Livro


No Sábado dia 15 de Maio, estarei na Feira do Livro de Lisboa, das 15 às 18 horas, junto do stand da editora Imprensa de Ciências Sociais, para uma “secção de autógrafos” do livro Folhas Ultras.

Escuso de dizer que “secção de autógrafos” é apenas o nome um tanto altissonante para informar da presença do autor. Quem procura o livro ou passeie por aí e queira aparecer por trocar umas ideias, dar sugestões e comentários acerca do tema tradado é bem-vindo.

Riccardo

José Valle de Figueiredo em África

Publico uma rectificação historiográfica que me fui enviada por um protagonista bem informado do meio nacionalista português.

Depois de ter enviado o comentário anterior, verifiquei que o que tinha escrito sobre o Zé Vale de Figueiredo não estava correcto. A memória às vezes prega-nos partidas.
A correcção é a seguinte: O Zé Vale (Alferes Miliciano de Infantaria) ofereceu-se como voluntário para a Guiné em 1967, para onde foi em rendição individual. Era Comandante Chefe o General Arnaldo Schultz. Spínola só chega à Guiné em 1968.

Corrigido este meu lapso não quero deixar de dizer que de entre todos os "nacionais" não houve nenhum que se escusasse a ir para os Teatros de Operações, uns voluntários e outros logo mobilizados, sem hipóteses de tempo para se voluntarizarem.
Também é certo que alguns Camaradas mobilizados para Províncias não em guerra (Timor e Cabo Verde) trocaram as suas mobilizações de forma a poderem ir para os teatros de operações

José Carlos

Zarco Moniz Ferreira

Aproveito dois comentários às memórias do Professor António José de Brito, para abrir um post sobre o Zarco Moniz Ferreira, líder do Movimento Jovem Portugal e um dos mais importantes animadores da area nacional-revolucionária portuguesa dos anos 60 e 70.
Todos os testemunhos (e muitos há por sí) sobre este militante politico serão bem vindos.

Talvez seja importante acrescentar um detalhe sobre a ida para Angola do Zarco.
Nos anos de guerra os Alferes Milicianos que não tivessem sido mobilizados para o Ultramar no seu tempo de serviço militar obrigatório, poderiam ser chamados para frequentarem o Curso de Capitão Miliciano (Zarco fê-lo em Mafra) já depois de terem iniciado as suas carreiras de trabalho e constituído as suas famílias. Esclarece-se que o poder não significava obrigatoriamente que o fossem.
Zarco viu-se assim confrontado com uma mobilização já com a vida familiar e profissional organizada (ao contrário da generalidade dos que iam como Alferes Milicianos) e também com a ideia que o tinham mobilizado para acabarem com a sua actividade política.
Protestou muito, mas foi. Comandou uma Companhia como Capitão Miliciano e portou-se bem, como aliás era de esperar.
É mais um esclarecimento. Se importante ou não, não me interessa.
Quanto ao Zé Vale foi para a Guiné para o Gabinete do Spínola. Nada mais me apetece escrever!!!
Nota: Zarco foi enterrado transportando nas suas mãos o boné - imortalizado na Guerra da Argélia - que o acompanhou na sua Missão ao serviço da Pátria! Honra lhe seja!

José Carlos


O Zarco enfrentava-os! Recordo-me de o ter visitado no Banco, onde trabalhava, na rua Castilho e lhe ter perguntado como lidara com os vermelhos bancários que certamente tentaram invadir o seu gabinete.
Respondeu: "Com isto!" e pôs de cima da secretária uma granada de mão ofensiva que retirou da gaveta, e acrescentou "Nunca mais ninguém passou daquela porta."

JM Santos Costa

Professor António José de Brito - I [20.04.2010]

Recebo e publico, em dois post e com todo o gosto, os comentários ao livro que me foram enviados pelo Professor António José de Brito, cujo conhecimento do tema e disponibilidade em me o transmitir, foram pedras angulares das minhas investigações.

Em primeiro lugar, quero agradecer-lhe a dedicatória, tão amavelmente exagerada, que me penhorou. Agradeço, também, as múltiplas referências que me faz ao longo dos dois volumes. Muito e muito obrigado.
Já sabe que a minha impressão sobre a obra é em extremos favorável, o que não impede uma ou outra discordância.
Julgo que na expectativa de uma segunda edição que muito desejo tenha lugar, convém fazer algumas rectificações, em pontos que passo a apontar.

Começo pelo Império, Nação, Revolução. Há nele uma investigação exaustiva que merece ser destacada. Até me deu novidades, como a existência de um artigo do José Valle de Figueiredo sobre o “Destino do Nacionalismo Português”.

Claro que não vi sem melancolia perpassarem pelos meus olhos os nomes de uma série de renegados […] que se integraram no presente e abjecto regime.

Pequenos reparos vou apresentar.

A p. 16 o Caetano de Mello Beirão é apresentado como secretário particular do Lumbralles. Era secretário, em lugar previsto na lei.

Giano Accame surge como presidente do Centro di Vita Italiana (p. 68). Se me não falha a memória, o presidente era Ernesto de Marzio, o vice-presidente N. Cimino (espero não estar a deturpar os nomes) e Accame o secretário.

O José Valle de Figueiredo e o Zarco Moniz Ferreira são apresentados como voluntários de guerra de defesa do Ultramar. Do José Valle a esse respeito não sei nada. Em compensação, o Zarco nada teve de voluntário. Andou a protestar, veementemente, contra a sua ida. Foi pelos cabelos mas, honra lhe seja, depois comportou-se bem.

A p. 196 alude-se à direcção do “Agora” por Goulart Nogueira. Talvez não fosse mau esclarecer que se tratava de uma direcção de facto, pois de direito a direcção pertenceu sempre ao Carvalho Branco.

Que a Introdução do Júdice à antologia sobre, ou melhor, de textos de José António Primo de Rivera fosse leitura de referência para os nacionalistas revolucionários (p. 259) é discutível. Alguns ficaram bastante escandalizados com ela. Na Cidadela, do Porto, o Júdice foi recebido com bastantes reticências exactamente por causa da mesma, que aliás despertou a discordância do Rodrigo Emílio, como você adiante refere.

Fala o meu Amigo no “nacionalismo de Estado” de Marcello Caetano (p. 407). Tal nacionalismo se existiu, abandonou-o Marcello, pelo menos, nos anos cinquenta.

E agora uma pergunta. Leo Negrelli, nos tempos de “A Nação” era adido cultural da embaixada italiana? (p. 345)

Professor António José de Brito - II [20.04.2010]

Passemos ao Folhas Ultras.

Creio que a p. 69 há um lapso de relativo vulto.
Escreve você: “na esteira dessa polémica” (em volta do artigo “Toque de Clarim”) “o grupo” dos amigos bracarenses “organiza a primeira conferência em Braga” de Alfredo Pimenta.
Ora, a primeira conferência, nessa cidade, de Alfredo Pimenta teve lugar em 11 de Março, intitulando-se “Mestres do Pensamento”. E o artigo “Toque de Clarim”, como você mesmo o diz apareceu no semanário “Acção”, em 1 de Setembro desse ano.
Impossível claro que tal primeira conferência tivesse qualquer conexão com um artigo que só veio à luz meses depois.

A p. 71 temos o seguinte: “A geração de 70 é constituída pelo grupo de intelectuais que operam entre 1871 e 1888 (nascida oficialmente do grupo dos Vencidos da Vida)”. Acabar em 88 com a actuação da geração de 70 é pelo menos estranho. E que tem o grupo, exclusivamente jantante e mundano, dos Vencidos com a geração de 70?
Houve membros da geração de 70 que nunca foram Vencidos – Teófilo Braga, Adolfo Coelho, Salomão Saragga – e Vencidos que nunca pertenceram a essa geração – Carlos Lobo de Ávila, pelo menos.

A p. 154 leio: “´Queiram Entrar…´ (dedicada às críticas contra o jornal Diário Nacional, órgão da Causa Monárquica que dispensou a colaboração de Alfredo Pimenta”. Não sei se o Diário Nacional era ou, propriamente, órgão da Causa Monárquica, mas não é isso que interessa. O que parece é que o verbo dispensar é o seu tanto equívoco; pode levar a supor que Alfredo Pimenta colaborara anteriormente em tal gazeta. Aliás, no ´Queiram Entrar…´ Pimenta não atacou exclusivamente os dislates monárquicos-democráticos do referido diário. Na secção em causa vemos, por exemplo, uma rude crítica à “Alocução aos Socialistas” de António Sérgio e um protesto contra as palavras de Eva Perón atribuindo a espanhóis a primeira travessia aérea do Atlântico, esquecendo o voo de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

A propósito do que afirma a p. 185 de Salgado Zenha, recordo que este foi nomeado pelo ministro da Educação Nacional, presidente da Comissão Administrativa da Associação Académica e só depois começou a bradar que precisava da eleição dos colegas. Quando ocorreu o episódio de que você fala não tinha recebido a “benção” democrática. Não esquecer que, nessa altura, Zenha era um comunista confesso. Estava algo de podre no reino de Salazar.

Sobre o “factor Pimenta” já disse o que tinha a dizer. Você continua na sua e está no seu direito.

Que em Portugal não tenham surgido grupos como os neo-maurrasianos ou os neo-falangistas (vários) só me parece um favor do céu. A respeito das fantasias emergidas na República Social Italiana (Spampanato, Rolando Ricci, etc) nem é bom falar. Julius Evola já as desvalorizou suficientemente embora ele – que se não considerava um fascista ortodoxo – tivesse igualmente as suas extravagâncias, uma delas bem lastimável que era a aceitação como dogma do chamado holocausto como realidade histórica (isto sem falarmos do seu ódio a Giovanni Gentile, de certo por causas pessoais que ignoro, da sua reverência por Benedetto Croce, e de certas esoterices, e da interpretação que dá ao conceito de Estado Ético).

E a finalizar, repito, a minha apreciação global do seu livro. É, de facto, excelente, o que é óbvio não implica concordância plena com o que nele diz.
Desculpe o desalinhavado desta carta. Renovo os meus agradecimentos.

As saudações de braço ao alto do sempre fascista

António José de Brito

Antena 1 - À volta dos livros [08-04-2010]

Entrevista realizada por Ana Aranha no seu programa da Antena 1, À volta dos livros


Comentário de Xavier Casals [08-04-2010]

Após a entrevista publicada no seu blog, o historiador espanhol Xavier Casals enviou-nos um comentário que publico com todo o gosto, pelo interessante cariz comparativo que oferece às futuras investigações sobre as direitas radicais ibéricas.

Los dos estudios de Marchi -Folhas Ultras e Impèrio, Nação , Revolução- permiten hacerse una buena idea de la evolución de la extrema derecha portuguesa desde los años cuarenta hasta el fin del Estado Novo en 1974. Como investigador de la ultraderecha española, su lectura me ha parecido interesante porque me ha permititido establecer unas primeras visiones comparativas entre la ultraderecha española y la lusitana y comprobar que sus trayectorias tienen más en común que de diferente.

En primer lugar, porque ambas obras dejan claro que la ultraderecha portuguesa constituye una suerte de aliada-enemiga de la dictadura, al igual que sucedió con la extrema derecha española en la España de Franco. En segundo lugar, porque explican las razones por las cuales tras el fin de la dictadura este espectro político fue incapaz de crear dejar una fuerza con representación permanente en el parlamento, como pasó en España después de la muerte de Franco. En tercer lugar, proque presentó dos polos urbanos -Coimbra y Lisboa- de gran similitud con los de Barcelona y Madrid en términos de centros importadores y creadores de ideología: en este sentido, Barcelona, como Coimbra, siempre ha sido más "modernizador". Por último, porque permite constatar que la descolonización no generó un movimiento ultranacionalista, como en España (a diferencia de Francia).

En definitiva, los trabajos de Marchi llenan un vacío académico para quienes investigamos la extrema derecha y me han permitido corroborar una hipótesis que sostenía: que la evolución de las extremas derechas del Midi europeo -Portugal, España y Grecia- es muy semejante y su larga ausencia de los parlamentos ha sido debida -en buena medida- a la existencia de dictaduras nacionalistas. En este aspecto, sus estudios acaban con tópicos de "excepcionalidades" españolas o portuguesas por lo que respecta a este espectro político al mostrar trayectorias parecidas en ambos países.